Por Adrielle Menezes
O Brasil produz mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, o equivalente a cerca de 1,2 kg de lixo por pessoa diariamente, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais. Apesar do volume expressivo, a destinação ainda é um desafio: aproximadamente 40% dos resíduos têm descarte inadequado, sendo encaminhados para lixões ou áreas irregulares, o que provoca impactos ambientais e à saúde pública. Além disso, o país recicla menos de 10% do lixo gerado, índice considerado baixo para os padrões internacionais.
Na região Norte, a situação também é alarmante. Em Manaus, são geradas cerca de 2,3 mil toneladas de lixo por dia, de acordo com a prefeitura. Em 2025, a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) informou que foram coletadas mais de 835 mil toneladas de resíduos na capital ao longo do ano anterior. Parte desse material acaba descartada de forma irregular, atingindo igarapés, bueiros e redes de drenagem, o que contribui para o aumento de alagações durante os períodos de chuva.
Um exemplo disso, foram diversos bairros alagados durante a chuva forte que atingiu a capital amazonense na quarta-feira (25/03), e causou diversos prejuízos para algumas famílias que tiveram que ser levadas para um abrigo. Ao total, foram registrados 114 ocorrências durante a chuva, com o bairro União da Vitória sendo um dos mais atingidos, com cerca de 30 ruas afetadas após o transbordamento de um igarapé.
Entretanto, especialistas apontam que o problema está relacionado à baixa cobertura da coleta seletiva, à falta de educação ambiental da população e à ausência de políticas públicas eficazes para o gerenciamento de resíduos. Grande parte do material que poderia ser reciclado ainda é descartada de forma inadequada.
“Quando o lixo é descartado de forma incorreta, ele acaba obstruindo bueiros e canais de drenagem, o que agrava significativamente os alagamentos em áreas urbanas de Manaus, que já possui desafios de infraestrutura adequada”, explica o engenheiro ambiental, Thiago Almeida.
Diante desse cenário, iniciativas locais surgem como alternativas para reduzir os impactos ambientais. Um exemplo é a empresa Amazon Limpa (foto em destaque), localizada na zona leste da capital amazonense. Segundo o proprietário, Mário Jonas Taumaturgo, a ideia do negócio nasceu da preocupação com o acúmulo de lixo plástico na cidade.
“A gente via muito material sendo jogado fora de forma irregular, principalmente em igarapés. Foi aí que surgiu a vontade de transformar esse problema em uma solução, gerando renda e ajudando o meio ambiente”, afirma.
A empresa realiza a coleta de materiais plásticos, como garrafas PET e tampinhas, e transforma esses resíduos em novos produtos, como vassouras. De acordo com o empresário, o processo envolve a separação, higienização e trituração do plástico, que depois é reutilizado na fabricação dos produtos.
“Tudo começa com a coleta. Depois, o material passa por uma triagem, é limpo e triturado. Esse plástico ganha uma nova forma e vira um produto útil novamente”, explica.
Apesar de iniciativas como essa atuarem na cidade, menos de 2% do lixo da capital é reciclado. O Amazonas aparece como o estado brasileiro com o menor índice de destinação adequada de resíduos sólidos. Enquanto a média nacional chega a 61,1%, no estado o percentual é de apenas 8,1%. Os dados constam na segunda edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, divulgado pelo Centro Brasil Clima em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS).