Especial Café com Saberes: Tenório Telles e Wilson Nogueira, Legado Amazônico

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Escritores Tenório Telles e Wilson Nogueira debatem a relação intrínseca entre literatura, jornalismo e o projeto político de pensar a Amazônia.

Por Ruanis Garcia

No encerramento das celebrações do mês do jornalista, o curso de Jornalismo promoveu, no último dia 29 de abril, uma edição marcante do projeto Café com Saberes. O evento reuniu acadêmicos, professores e profissionais no auditório da faculdade para mergulhar na história do Clube da Madrugada, movimento que revolucionou a estética e o pensamento crítico no Amazonas a partir de 1954.

Tenório Telles e Wilson Nogueira (Foto: Instagram)

Com mediação de Joseph Duarte e abertura de Orlando Menezes, a roda de conversa recebeu os jornalistas e escritores Tenório Telles e Wilson Nogueira. O debate distanciou-se do relato meramente histórico para explorar como o repertório literário molda o caráter do bom repórter. Telles foi enfático ao afirmar que literatura e jornalismo são indissociáveis, lembrando que os fundadores do Clube da Madrugada eram, essencialmente, jornalistas que usavam a palavra como ferramenta de transformação social.

Trajetória e Resistência

Wilson Nogueira abordou a influência do Novo Jornalismo e a necessidade de humanizar o relato factual. Relembrando as madrugadas no emblemático Café do Pina, na Praça da Saudade, os convidados destacaram que o Clube não nasceu como um simples grêmio literário, mas como um projeto político e social.

“O jornalismo exige decisões difíceis. No começo da carreira, a gente fazia o impossível para chegar ao fato. Hoje, com toda a tecnologia, às vezes falta a curiosidade de ‘ir lá e ver’. O bom repórter é aquele que mantém o espírito transgressor do Clube da Madrugada vivo na apuração.”, comentou Nogueira.

Nogueira também trouxe relatos de sua trajetória “raiz”, lembrando de épocas em que o jornalismo exigia ousadias físicas, como coberturas no interior que demandavam logística complexa e éticas, mantendo o compromisso com a verdade em cenários de pressão. Para os estudantes presentes, a mensagem foi clara: o incentivo deve vir da “amizade intelectual” e da coragem política de questionar a realidade.

O Legado do Café do Pina

Fundado em 1954, o Clube da Madrugada não possuía sede formal ou hierarquia. Eram jovens conversando sobre literatura, comunicação e política madrugada adentro. Esse espírito de debate livre foi resgatado no Café com Saberes, provando que a palavra continua sendo o principal marco de incentivo para os novos comunicadores amazonenses. Tenório Telles detalhou como o movimento nasceu da simplicidade de encontros noturnos entre jovens que queriam sacudir o imobilismo cultural de Manaus.

Clube da Madrugada. (Foto: divulgação)

“Não havia manifesto formal ou sede luxuosa; havia a urgência de pensar a Amazônia de forma crítica”, explicou.

Diferente de outros movimentos literários, o Clube da Madrugada foi um projeto político e social. Liderado por nomes como Luiz Bacellar, Jorge Tufic e Alencar e Silva, o grupo rompeu com o academicismo tradicional e trouxe uma nova linguagem para os jornais e livros da época. Eles pintaram a região com cores reais, focando nas tensões urbanas e na identidade de um povo que buscava sua própria voz diante do isolamento geográfico.

O Café com Saberes foi, acima de tudo, um ato de recuperação histórica. Trazer esse movimento para o centro do debate no mês do Jornalista permitiu aos acadêmicos entenderem que estão escrevendo o próximo capítulo de um movimento que começou há sete décadas. Mesmo com os desafios de um mercado saturado, a noite provou que o jornalismo literário e engajado permanece como a bússola essencial para a identidade amazônica.

“O Amazonas para mim não é só um tema, é um modo de ser. Minha infância em Barreirinha me deu o ritmo das águas, e é esse ritmo que tento levar para o texto. O jornalista que ignora a literatura de sua própria região está escrevendo no vazio.”, declarou Tenório Telles, ao portal A Crítica.


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