Enquanto grandes festivais ajudam a consolidar a imagem do Amazonas como um dos principais polos culturais do país, parte da produção artística contemporânea segue distante dos holofotes. Em Manaus, artistas trans vêm ocupando espaços alternativos, produzindo música, dança, teatro, performance, audiovisual e artes visuais, mas ainda enfrentam dificuldades para acessar recursos, editais públicos, curadorias e reconhecimento institucional.
A invisibilidade desses artistas não significa ausência de produção. Pelo contrário. Em diferentes regiões da cidade, especialmente no Centro e nas periferias, coletivos independentes, festas, grupos artísticos e redes de apoio vêm funcionando como espaços de criação e permanência para pessoas trans, travestis e não binárias. Ainda assim, o acesso desigual às estruturas formais de financiamento cultural faz com que grande parte dessa produção permaneça à margem da narrativa dominante sobre a cultura amazônica.
A contradição é evidente: embora Manaus seja frequentemente associada à efervescência cultural, sobretudo pela força de manifestações tradicionais e grandes espetáculos, artistas trans relatam dificuldades que ultrapassam os desafios comuns da produção independente. Entre elas estão a precariedade financeira, a baixa circulação institucional e o preconceito estrutural que limita o acesso a oportunidades, editais e reconhecimento profissional. Atuando no mundo artístico amazonense a mais de 5 anos, a cantora, dançarina e atriz trans Arty Star relata que no cenário regional uma das principais barreiras enfrentadas é a limitação e falta de oportunidade.
“As principais barreiras que a gente enfrenta é justamente quando colocam a gente numa caixinha, num nicho específico, em lugares específicos. Quando não abrem portas para a gente ocupar outros espaços. E querendo ou não, artistas LGBTQIA+ e principalmente a comunidade trans, a gente precisa sempre nos reafirmar, sempre impor respeito. A gente leva uma luta com a gente, mesmo não lutando. A gente fica nessa luta o tempo todo. Então, existem muitas barreiras justamente porque é como se fossem cercas. Colocam cercas para a gente durante eventos ou então nos limitam. Os contratantes limitam a gente nesses lugares e só nos contratam, só nos buscam quando é conveniente”, disse a artista.
Foto: Redes Sociais/Arty.
Esse cenário local se conecta a uma realidade nacional marcada por exclusão e violência. Pelo 17º ano consecutivo, o Brasil segue como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos, segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), número menor do que os 122 casos registrados em 2024, mas ainda insuficiente para retirar o país do topo do ranking global de violência contra essa população. Na região Norte, o Dossiê Antra contabilizou sete assassinatos em 2025, sendo um deles no Amazonas.
Mesmo com queda de 34,4%, Brasil segue pelo 17º ano consecutivo como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. (Arte: Adrielle Menezes / Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais)
Para a ativista e Presidente da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Estado do Amazonas (Assotram), Joyce Gomes, o apagamento de pessoas trans não ocorre apenas por meio da violência física, mas também pela exclusão simbólica e institucional. No campo artístico, isso se reflete na dificuldade de acessar financiamento, formação técnica e legitimidade cultural.
“A visibilidade é uma ferramenta de luta. Falar sobre visibilidade trans é trazer ao centro todas as necessidades de pessoas trans por políticas públicas urgentes”, ressaltou Joyce.
Em Manaus, artistas trans relatam que o desafio não está apenas em criar, mas em permanecer produzindo. Sem financiamento contínuo e diante da dificuldade de acessar mecanismos formais de incentivo, muitos acabam conciliando a arte com outros trabalhos ou recorrendo a redes independentes para manter ensaios, apresentações e projetos culturais ativos.
“A gente sempre passa por muitas dificuldades. Ainda mais na área artística aqui, em Manaus, que é tão desvalorizada. Atualmente, além de realizar os meus shows, eu também ministro aulas de dança em um estúdio”, relatou Arty.
Foto: Adrielle Menezes.
Mesmo diante dessas barreiras, coletivos independentes vêm transformando parte da cena cultural manauara ao criar espaços próprios de circulação artística. Um dos exemplos mais visíveis dessa movimentação é a Cena Ballroom, movimento cultural surgido entre comunidades negras, latinas e LGBTQIAPN+ nos Estados Unidos e que, nos últimos anos, ganhou força também na capital amazonense.
Mais do que competições de dança, moda e performance, a Ballroom funciona como espaço de acolhimento, fortalecimento identitário e expressão artística. Em Manaus, iniciativas como a Casa Konda ajudam a consolidar essa cena ao reunir artistas periféricos, pessoas trans, travestis e não binárias em eventos que combinam performance, dança, música e ocupação do espaço urbano.
A existência desses coletivos reforça uma questão central: a invisibilidade não está necessariamente na falta de produção artística, mas nos critérios de reconhecimento institucional. Enquanto parte significativa dos investimentos culturais ainda se concentra em grandes festivais e produções consolidadas, artistas ligados à cultura queer, periférica e contemporânea frequentemente constroem suas trajetórias fora das estruturas oficiais de financiamento.
A produção cultural LGBTQIAPN+ em Manaus, contudo, está longe de ser recente. Nos últimos anos, grupos locais passaram a ocupar espaço de destaque ao transformar experiências historicamente marginalizadas em linguagem estética, memória e debate público.
Foto: Adrielle Menezes.
Entre os principais exemplos está o Ateliê 23, coletivo teatral reconhecido nacionalmente por produções que combinam teatro musical, pesquisa documental e releitura histórica de narrativas invisibilizadas. Sediado em Manaus, o grupo tornou-se uma das principais referências culturais da região Norte ao construir espetáculos que tensionam memória, sexualidade e pertencimento amazônico, frequentemente com protagonismo de artistas LGBTQIAPN+ em cena.
Em Cabaré Chinelo, espetáculo indicado a premiações nacionais, incluindo o Prêmio Shell, o grupo resgata a história do antigo cabaré instalado no Hotel Cassina, no Centro de Manaus, durante o Ciclo da Borracha, revisitando trajetórias marcadas por exploração e vulnerabilidade social.
Já em Sebastião, inspirado no livro Um Bar Chamado Patrícia, de Bosco Fonseca, o coletivo retorna à Manaus dos anos 1970 para revisitar a memória do Bar Patrícia, reconhecido como um dos primeiros espaços de sociabilidade LGBTQIAPN+ da cidade. Funcionando em plena ditadura militar, o local se tornou ponto de encontro e resistência para pessoas que viviam à margem das normas sociais da época.
O resgate dessa memória dialoga diretamente com as pesquisas do historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Renan Quinalha. Em obras sobre memória LGBTQIAPN+ e repressão durante a ditadura militar, o pesquisador argumenta que espaços de convivência, afeto e produção cultural ligados à população LGBTQIAPN+ foram historicamente alvo de perseguição e apagamento institucional. Segundo ele, isso criou a falsa impressão de que a presença LGBTQIAPN+ na cultura brasileira seria algo recente, quando, na prática, essas trajetórias sempre existiram, ainda que frequentemente silenciadas.
Essa disputa por reconhecimento também aparece em um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira: o Carnaval. Em 2025, a escola de samba Paraíso do Tuiuti levou à Sapucaí o enredo “Quem tem medo de Xica Manicongo?”, transformando em tema central a trajetória da considerada primeira travesti documentada do Brasil.
Paraíso do Tuiuti levou representatividade trans e travesti para a Marquês de Sapucaí no Carnaval de 2025. (Foto: Wikipédia)
Nascida no Reino do Congo e trazida à força para o Brasil durante o período escravagista, Xica Manicongo viveu na Bahia do século XVI e foi perseguida pela Inquisição após resistir às imposições coloniais de gênero. Ao transformar essa trajetória em samba-enredo diante de milhões de espectadores, o Carnaval reposicionou no centro da cultura popular uma personagem historicamente apagada, em um gesto de reparação simbólica pela arte.
Em Manaus, artistas e coletivos questionam até que ponto políticas públicas de inclusão conseguem alcançar quem produz arte fora dos espaços tradicionalmente legitimados da cidade. Nos últimos anos, o Governo do Amazonas passou a adotar critérios específicos em editais culturais, incluindo ações ligadas à diversidade, ao mesmo tempo em que programas como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc ampliaram os recursos destinados ao setor.
Na prática, porém, coletivos independentes apontam dificuldades relacionadas à burocracia, à elaboração de projetos e ao acesso à informação como obstáculos para que artistas periféricos e independentes consigam acessar esses mecanismos de incentivo.
Na capital amazonense, a questão já não parece ser sobre existência. Artistas trans já produzem, performam, dirigem, pesquisam e ocupam espaços culturais na cidade. O desafio, segundo coletivos e pesquisadores, está em garantir que essa produção não permaneça restrita à lógica da resistência, mas seja reconhecida como parte legítima da cultura amazônica contemporânea.
A artista Arty Star conta um pouco mais sobre a realidade de ser uma artista na cidade de Manaus: