Ao integrar o abastecimento fluvial à mesa do manauara, a feira impulsiona o comércio de hortifrúti e mantém vivas as tradições gastronômicas

Como pilar histórico e econômico, a Feira da Banana consolidou-se muito além de um tradicional centro de distribuição de hortifrúti. Mais do que o motor da economia popular que movimenta o escoamento de produtos, o entreposto é o reflexo vivo de histórias de feirantes que sustentam famílias, preservam gerações e mantêm vivas as tradições gastronômicas do Amazonas.
Tendo o fruto como seu produto primordial, o espaço consolida-se como o principal centro de distribuição de variedades de bananas, com destaque para as espécies pacovã e prata, trazidas por produtores rurais de municípios vizinhos como Manacapuru, Careiro e Iranduba.
Para além da banana, o local fornece outros insumos amazônicos, como o tucumã, a pupunha e o açaí, elementos que enriquecem diariamente a identidade cultural e alimentar da população.

As raízes desse sistema de abastecimento tiveram início no histórico Mercado Municipal Adolpho Lisboa. No entanto, o aumento expressivo no volume de mercadorias vindas do interior do estado, somado à crescente chegada de trabalhadores ao setor, fez com que a estrutura original do prédio se tornasse insuficiente para absorver a intensa demanda comercial da época.
Diante desse gargalo, os próprios comerciantes tomaram a iniciativa de se organizar de forma improvisada no entorno do complexo, montando barracas para garantir as vendas. Durante anos, o comércio da banana funcionou nessa dinâmica informal de rua.
Foi a partir dessa estrutura incerta e dispersa que o poder público interveio, em 1992, durante a gestão do prefeito Eduardo Braga. Com a construção de um anexo do Mercado Adolpho Lisboa e a padronização dos boxes para os feirantes, a Feira da Banana foi finalmente oficializada, ganhando contornos definitivos no Centro de Manaus.
“A Feira da Banana nasce como um grande entreposto que abastecia a cidade de comida, ou seja, os principais produtos consumidos pela população da Amazônia no século XX eram comercializados no local”, explica o professor de história da Fundação Matias Machline (FMM), Luca Premoli.

Conforme explica o professor, um dos pontos centrais para compreender a relevância do entreposto é a sua localização estratégica no Centro, combinada à proximidade direta com o Porto de Manaus. Historicamente, essa área consolidou-se como a principal rota de escoamento de produtos da região, além do fluxo diário de embarque e desembarque de populares.
“Toda aquela região começa a atrair os olhares do mundo durante o auge do ciclo da borracha, tornando-se o centro comercial mais importante da nossa região”, disse Luca.
A relevância econômica para o comércio e o abastecimento de Manaus
A atividade contribui para a geração de empregos e renda, movimentando a economia local e garantindo o sustento de dezenas de trabalhadores envolvidos.
Entre eles estão permissionários, feirantes, carregadores, pequenos produtores rurais e transportadores, que desempenham funções importantes desde o transporte das mercadorias até a comercialização dos produtos.
Dessa forma, a atividade fortalece o comércio, amplia as oportunidades de trabalho e contribui para a subsistência de diversas famílias que dependem desse setor primário.
Para o professor de economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Armando Clóvis, a Feira da Banana funciona como uma importante ferramenta na circulação de renda, impulsionando um fenômeno econômico conhecido como multiplicador de renda.
Ele explica que o dinheiro gasto pelos consumidores na feira continua circulando em outras atividades econômicas. Para exemplificar esse processo, ele afirma:
“Eu vou à feira e gasto 100 reais. Esse feirante vai pagar pelo gelo, que é outra atividade econômica. Esse vendedor de gelo vai pagar um funcionário, e esse funcionário vai gastar esse dinheiro no supermercado”.

Dados de janeiro de 2025, divulgados pela Prefeitura de Manaus e citados pelo economista, apontam que o entreposto sustenta mais de 340 empregos diretos e 9 mil postos indiretos, incluindo agricultores, transportadores, feirantes de bairro e restaurantes de toda a cidade.
Ele destaca:
“A feira é um setor importante, porque essa renda direta vai ser gerada na economia e vai impactar, como estamos dizendo aqui, os nove mil trabalhadores, de acordo com os dados da Prefeitura”.

Para além da Feira da Banana
Embora a Feira da Banana seja reconhecida como um dos maiores entrepostos de distribuição de bananas e diversas outras frutas na capital amazonense, ela integra uma rede vital de mercados municipais.
A capital amazonense conta com outras feiras estratégicas que formam uma engrenagem essencial para a movimentação econômica.
Entre esses polos, a Feira do Coroado destaca-se como um dos espaços mais tradicionais da Zona Leste, com quase 30 anos de história. Composta por dezenas de bancas para permissionários, a feira oferece refeições e produtos variados. Dados da Prefeitura de Manaus divulgados entre 2022 a 2025 apontam que o local gera 600 empregos diretos e 5.000 indiretos.
Além dessa, entrepostos como a Feira da Panair, Alvorada 2, Armando Mendes e Feira do Parque 10 também impulsionam a geração de empregos e desempenham um papel central na preservação da identidade cultural manauara.

O hábito de frequentar as feiras ultrapassa a simples rotina de consumo, revelando um espaço pulsante de sociabilidade e integração regional.

Desafios e Limitações
Apesar de sua relevância econômica e do seu valor histórico para Manaus, as feiras populares enfrentam uma série de gargalos estruturais, logísticos e sociais que afetam diretamente o cotidiano do comércio.
As limitações começam na infraestrutura física dos galpões e se estendem à cadeia de transporte e conservação dos hortifrutis, em que a falta de câmaras frias e de logística adequada pode acelerar a perda de mercadorias perecíveis e elevar os custos para feirantes e produtores rurais.
Além dessas barreiras operacionais, o setor lida com a forte concorrência dos grandes supermercados e redes de atacadistas, que atraem consumidores com facilidades de pagamento e maior conforto térmico.
Para conter essa perda de público e garantir a sobrevivência da economia popular, espaços como a Feira da Banana vêm demandando e recebendo investimentos públicos de revitalização, voltados à melhoria da higiene, da segurança e da reorganização das bancas.
A rotina de quem vive do comércio de bananas
Trabalhando na Feira da Banana há cerca de 20 anos, o feirante Salomão Garcia acompanha de perto as mudanças na movimentação do comércio e a rotina de quem depende da venda de produtos para garantir a renda. O trabalho começa ainda durante a madrugada, quando os primeiros compradores chegam ao local.
“Meu dia a dia é puxado. Eu acordo às 3 horas da manhã e vai até as 15h. Antigamente era até as 17h, mas como o movimento ficou mais fraco, aí é até as 15h”, relata.

Segundo o trabalhador, o movimento comercial é mais intenso nos finais de semana e nas primeiras horas da madrugada. Durante os dias úteis, a procura costuma ser menor.
A comercialização da banana também acompanha períodos de maior e menor oferta do produto. De acordo com o feirante, a disponibilidade tem o seu ápice durante os meses de janeiro a maio e começa a diminuir a partir de outubro, situação que influencia diretamente as vendas.

Um patrimônio de herança familiar e cultural
Essa rotina viva sustentou-se no tempo por meio da transmissão familiar de conhecimentos. Ao herdarem a profissão de pais e avós, os permissionários aprendem a selecionar o produto no ponto certo, negociar com fornecedores e cultivar a fidelidade da clientela.
Essa herança de saberes ganha vida no contato direto entre o produtor ribeirinho e a população urbana, estabelecendo relações que superam a simples compra e venda.
A dinâmica comercial converte-se em uma contínua troca de experiências, consolidando a feira não apenas como ponto de abastecimento, mas como um símbolo vivo da cultura e do cotidiano amazônico.
Ao preservar o passado e moldar o presente, a Feira da Banana consolida-se como o verdadeiro patrimônio humano e cultural do Centro da cidade.
Enquanto os rios continuarem a trazer os frutos da terra até os seus portos, o local seguirá como o coração pulsante da vida manauara, alimentando a economia, a memória e a identidade de todo o Amazonas.