Fumaça das queimadas ameaça turismo e renda de trabalhadores no Amazonas

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A fumaça provocada pelas queimadas no Amazonas ultrapassa os impactos ambientais e os riscos à saúde pública. A piora na qualidade do ar também interfere na atividade turística e na renda de trabalhadores que dependem da chegada de visitantes para garantir o próprio sustento. Com mudanças na programação de passeios e incertezas sobre o fluxo de turistas, pequenos empreendedores e comunidades locais enfrentam os reflexos de um cenário que compromete diferentes atividades econômicas.

Na feira de artesanato _Jana Aurilândia, onde 29 famílias comercializam produtos regionais, a presença de turistas representa uma importante fonte de renda. Entre os trabalhadores está Demétrio, feirante e artesão que depende das vendas para sustentar a família e contribuir com a comunidade onde vive.

Para ele, a circulação de visitantes é fundamental para manter as atividades. A comercialização das peças ajuda a pagar as despesas familiares e a garantir a continuidade do trabalho desenvolvido pelos artesãos.

“Muitas pessoas vivem da venda do artesanato. Eu pelo menos vivo da venda do artesanato. Aqui eu sustento a minha família, pago minhas contas e ajuda a manter a comunidade que gente trabalha com o turismo. Através do artesanato a gente mantém quanto o flutuante que esse aqui é nosso”, relata Demétrio.

Demétrio Coelho – feirante da comunidade do Jana Aurilândia / Foto: Jhoseph Duarte

Além da venda de artesanato, o turismo na comunidade envolve trilhas e experiências de contato com a natureza. Essas atividades complementam a renda dos moradores e ampliam as oportunidades de trabalho. Por isso, a redução no número de visitantes pode afetar toda uma cadeia de serviços e produtos que depende da movimentação turística.

A vulnerabilidade desse setor se torna ainda mais evidente durante os períodos de fumaça intensa. A piora na qualidade do ar gera preocupação com atividades ao ar livre, levar ao adiamento de passeios e provocar mudanças nos roteiros. Para comerciantes, transportadores e empreendedores que oferecem experiências na floresta, essas alterações representam o risco de redução na procura por serviços e produtos.

Os efeitos também aparecem nos indicadores econômicos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume das atividades turísticas no Amazonas registrou queda de 15% em agosto de 2026, na comparação com o mesmo mês de 2025. O indicador reúne serviços como hospedagem, alimentação, transporte de passageiros e agências de viagens.

A Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur) registrou redução de 1,11% no fluxo de turistas em agosto e de 5,04% em setembro de 2026. No mesmo período, a malha aérea apresentou retração de 17,5%, fator que também pode interferir na chegada de visitantes ao estado.

Embora os números indiquem uma redução na atividade turística, é importante considerar que a fumaça não é o único fator capaz de explicar esse cenário. As condições de transporte, a sazonalidade e outros aspectos econômicos também influenciam a movimentação de turistas.

Os reflexos dessas variações podem ser observados em empreendimentos que integram os roteiros turísticos do Amazonas. No restaurante de Jana Aurilândia, uma das paradas do passeio Safari Amazônico, o proprietário Joel Pedrosa, acompanha as mudanças no número de clientes conforme a temporada.

Nos meses de maior movimentação, especialmente junho e julho, o estabelecimento recebe entre 3 mil e 5 mil pessoas por mês. Durante o período de vazante, a média cai para aproximadamente 1.500 visitantes. A diferença demonstra como os negócios ligados ao turismo estão sujeitos às condições que influenciam a visitação ao estado.

A gastronomia regional, o comércio de produtos locais e as experiências culturais fazem parte de uma cadeia econômica que depende tanto da chegada de turistas quanto da permanência deles nos destinos. Quando o fluxo diminui, os efeitos podem alcançar diferentes profissionais envolvidos na atividade.

Nesse contexto, o artesanato também ocupa um papel importante na economia amazonense. De acordo com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas (Sedecti-AM), o estado reúne cerca de 12 mil artesãos. Para esses trabalhadores, a comercialização das peças representa uma fonte de renda e contribui para a preservação de conhecimentos e práticas tradicionais.

Em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, a produção artesanal pode ajudar a sustentar famílias e fortalecer a economia local. Quando associada ao turismo, ela encontra nos visitantes um público consumidor e amplia a visibilidade da cultura regional. Dessa forma, a valorização das tradições e a conservação dos territórios também se relacionam à sustentabilidade econômica dessas comunidades.

A fumaça das queimadas evidencia que os impactos ambientais podem ultrapassar a floresta e alcançar diretamente a vida de quem depende dela para trabalhar. Para Demétrio, Joel e as famílias que vivem do artesanato e do turismo, cada visitante representa uma oportunidade de venda, geração de renda e continuidade das atividades comunitárias. Em um estado onde a natureza e a cultura são parte fundamental da experiência turística, preservar esses ambientes também significa proteger os meios de vida de milhares de trabalhadores.


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