Esporte verde e mobilidade ativa, pedalando por um futuro melhor

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Por Ruanis Garcia

Preso no trânsito caótico e respirando ar poluído nas grandes cidades, o brasileiro descobre na bicicleta uma ferramenta poderosa de sustentabilidade. O país acelera investimentos em mobilidade ativas, como ciclovias, sistemas de bikes compartilhadas e programas que unem saúde pública, redução de emissões de CO₂ e inclusão social. Na capital Amazonense, não é diferente, o Programa Bicicleta Brasil, Pedala Manaus, Bike Anjo e as famosas Pedaladas Comunitárias fazem parte da luta da sociedade por uma melhor qualidade de vida.

Pedala Tour (Foto: Antônio Pereira/Semcom)

Os desafios diários que a bike ajuda a enfrentar

O transporte motorizado é um dos grandes vilões ambientais e de saúde no Brasil. Congestionamentos geram perdas bilionárias e o setor responde por boa parte das emissões urbanas de CO₂ e partículas finas, agravando doenças respiratórias e cardiovasculares. Em metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, milhares de pessoas perdem horas preciosas todos os dias no trânsito.

Foto: Altemar Alcantara/Semcom

Em Manaus, o cenário é igualmente crítico. Com uma frota que ultrapassa 900 mil veículos, a capital amazonense sofre com gargalos logísticos e altos índices de poluição térmica. Especialistas locais apontam que a dependência do transporte motorizado contribui para a formação de “ilhas de calor”, elevando as temperaturas em bairros densamente urbanizados. A bicicleta surge como antídoto eficiente: cada quilômetro pedalado em vez de percorrido de carro reduz emissões, melhora a qualidade do ar e traz benefícios diretos à saúde.

Programa Bicicleta Brasil

O Programa Bicicleta Brasil, instituído pela Lei nº 13.724/2018, incentiva o uso da bicicleta como meio de transporte em cidades com mais de 20 mil habitantes, contribuindo para a melhoria da mobilidade urbana em todo o território nacional. Em 2025, o programa ganhou destaque com o Prêmio Bicicleta Brasil, que reconheceu 72 iniciativas nacionais durante a COP30, promovendo sustentabilidade, saúde e inclusão.

“Nossa missão é mostrar que a rua também é das mulheres. O Programa Bicicleta Brasil é importante porque ele valida projetos que não são apenas ‘obras de asfalto’, mas de educação. Quando ensinamos uma mulher a pedalar para ir ao mercado ou levar o filho na escola, estamos mudando a dinâmica da cidade. Em Manaus, por exemplo, o calor é um desafio, mas a falta de respeito dos motoristas é o que realmente afasta as pessoas das ciclovias.”, Letícia de Oliveira, 29 anos, integrante de um coletivo de mulheres ciclistas premiado pelo Selo Bicicleta Brasil.

A lei prevê ações como:

  • Construção e expansão de ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas;
  • Campanhas educativas para criar uma cultura cicloviária;
  • Implantação de sistemas de aluguel de bicicletas de baixo custo em terminais de transporte coletivo;
  • Instalação de bicicletários, bebedouros e banheiros adequados.
“Pedalo 6 km todos os dias para o trabalho. Evito ônibus lotado e melhorei minha saúde: perdi peso e reduzi o estresse. Apesar de colocar minha vida em risco, pois Manaus não tem muitas opções de ciclovias. A Lei do Programa Bicicleta Brasil é importante, mas tem que sair do papel com mais ciclovias e educação no trânsito.”, conta Maria Oliveira, 28 anos, professora infantil.

Embora a lei tenha sido sancionada há oito anos, ela continua sendo o principal marco legal nacional para a ciclomobilidade. Em 2025, o Ministério das Cidades manteve o Prêmio Bicicleta Brasil, que reconhece boas práticas municipais e incentiva a implementação do programa. O PBB também se articula com o Novo PAC Mobilidade, que destinou bilhões em investimentos para infraestrutura cicloviária integrada ao transporte público.

Ciclovias e bikes compartilhadas

Segundo o Levantamento Nacional da Aliança Bike / União de Ciclistas do Brasil, as capitais brasileiras ampliaram sua rede cicloviária entre 2024 e 2025, chegando a mais de 4.266 km. São Paulo lidera com 737 km. De acordo com Instituto Municipal de Mobilidade Urbana – IMMU, Manaus, por sua vez, caminha a passos mais lentos, possuindo cerca de 50 km de malha cicloviária, entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. Embora trechos na Ponta Negra e na Avenida das Torres sejam populares, a conexão entre os bairros da Zona Norte e o Centro ainda é um desafio para quem usa a bike como transporte diário.

O sistema de bicicletas compartilhadas, como o Manôbike, tem sido um aliado importante na capital amazonense, facilitando o deslocamento em áreas como o Centro Histórico e o Vieiralves, ajudando a reduzir o fluxo de carros em horários de pico. O Novo PAC prevê investimentos que podem ajudar Manaus a integrar melhor suas ciclovias ao sistema de transporte coletivo e aos terminais de integração.

Tinta sobre o patrimônio e insegurança

Em Manaus, a expansão da malha cicloviária tem sido alvo de intensas críticas por parte de urbanistas e grupos de ativistas, como o Pedala Livre. Um dos episódios mais polêmicos ocorreu no final de 2023, quando a Prefeitura, sob a gestão de David Almeida, decidiu pintar de vermelho as pedras portuguesas do calçadão da Ponta Negra para criar uma ciclofaixa. A medida foi classificada por historiadores e pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/AM) como “grotesca”, por descaracterizar um patrimônio que remete ao “banzeiro” dos rios amazônicos. Após a repercussão negativa e pressão nas redes sociais, a prefeitura voltou atrás e removeu a tinta.

Foto: Henri Clay/Rede Amazônica

Além das questões estéticas, a funcionalidade das vias é questionada. Ciclistas relatam que muitas ciclofaixas são apenas “pinturas no asfalto” sem segregação física (balizadores ou meios-fios), o que não impede a invasão de carros. Trechos recém-inaugurados em grandes avenidas, como a Constantino Nery e a Avenida das Torres, apresentam pontos de descontinuidade perigosos, obrigando o ciclista a dividir espaço diretamente com ônibus e carretas em áreas de alta velocidade.

“Quem planeja essas mudanças muitas vezes não pedala. Não adianta pintar uma calçada ou uma faixa se ela não leva a lugar nenhum ou se termina abruptamente em um cruzamento perigoso,” afirma Leandro Moisés, um representante de coletivos locais.


Pedala Manaus e Bike Anjo

Em Manaus, onde o clima e o relevo são frequentemente usados como desculpas para a falta de investimento, o movimento Pedala Manaus (fundado em 2010) atua como a principal voz de advocacy (defesa de direitos). O grupo não apenas organiza passeios, mas monitora o Plano de Mobilidade Urbana e cobra a prefeitura por infraestrutura real. Um de seus projetos mais impactantes é o Pedala Maninho, que leva educação para o trânsito e doação de bicicletas recuperadas para comunidades da periferia, como o bairro Jorge Teixeira, provando que a bike é, antes de tudo, uma ferramenta de inclusão social.

Foto: Instagram Pedala Manaus

Complementando essa rede, o Bike Anjo Manaus oferece o “empurrãozinho” que falta para muitos iniciantes. Através da EBA (Escola Bike Anjo), voluntários ensinam adultos e crianças a pedalar gratuitamente em espaços públicos, como o entorno da Arena da Amazônia. Mais do que ensinar o equilíbrio, o “Anjo” acompanha o novo ciclista em suas primeiras rotas para o trabalho, ensinando a se posicionar com segurança diante de ônibus e carros.

“O grande erro de Manaus é tratar a bicicleta apenas como lazer. Temos uma malha fragmentada: o ciclista pedala 1 km em uma ciclofaixa e, de repente, ela acaba e ele é jogado no meio dos carros em avenidas perigosas. Enquanto não houver uma conexão real entre a Zona Norte e o Centro, a bicicleta continuará sendo um privilégio de quem mora perto da Ponta Negra, e não uma solução de transporte para o trabalhador manauara.”, Paulo Aguiar, Coordenador-geral do Movimento Pedala Manaus e consultor em mobilidade ativa.

Além desses, o Pedala Livre tem ganhado destaque em 2026, facilitando o acesso ao esporte com o empréstimo gratuito de bicicletas em sua base no bairro Alvorada, permitindo que quem ainda não possui o equipamento possa experimentar a sensação de liberdade sobre duas rodas. O Programa Bicicleta Brasil e o Novo PAC mostram que o país está na direção certa, mas Manaus precisa de uma aceleração própria. Especialistas defendem que a arborização urbana é indissociável da ciclomobilidade na Amazônia: para pedalar mais, o cidadão precisa de sombra e vias conectadas.

 

O Poder das Pedaladas Comunitárias

Para quem deseja começar, as pedaladas comunitárias são a melhor alternativa. Na capital Amazonense, esses grupos reúnem desde ciclistas experientes até iniciantes, garantindo segurança através do volume de pessoas e do apoio de “batedores” voluntários que sinalizam o trânsito. Abaixo segue uma lista para quem deseja integrar uma das ações coletivas, por toda Manaus:

  • Centro e Zona Sul: O grupo Pedala Manaus organiza saídas regulares, frequentemente partindo de pontos icônicos como o Largo de São Sebastião ou o entorno do Amazonas Shopping. Eles focam em rotas que misturam lazer e conscientização histórica.

  • Zona Oeste (Ponta Negra): Praticamente todas as noites, o calçadão da Ponta Negra serve de concentração para diversos grupos. É o local ideal para quem busca um ritmo mais leve e contemplativo à beira do Rio Negro.

  • Zona Centro-Sul: O entorno da Arena da Amazônia e da Vila Olímpica é o reduto dos treinos noturnos e das escolinhas do Bike Anjo, que acontecem geralmente aos fins de semana.

  • Zona Norte e Leste: Grupos como os de bairros como Cidade Nova e Aleixo organizam saídas que conectam as periferias às grandes avenidas, fortalecendo a rede de ciclistas trabalhadores da rea.

A participação é, na grande maioria das vezes, gratuita. Basta ter uma bicicleta em boas condições de uso, luzes de sinalização (branca na frente e vermelha atrás) e, preferencialmente, capacete. Para encontrar o grupo mais próximo da sua casa, a dica de ouro é acompanhar as redes sociais (Instagram e Facebook) do Pedala Manaus e do Bike Anjo Manaus, que funcionam como grandes murais de eventos da cidade.

Além disso, o projeto Pedala Livre no bairro Alvorada é o ponto de encontro perfeito para quem ainda não tem bike própria mas quer experimentar a sensação de rodar em grupo antes de investir no equipamento. Começar em grupo não é apenas uma questão de segurança; é descobrir uma nova Manaus, com menos ruído e mais conexões humanas. Procure um grupo hoje mesmo, suba no selim e ajude a transformar a mobilidade da nossa capital.

Pedale. Respire. Transforme.