Por Bruna Pinheiro
A pressão, os plantões e as longas jornadas de trabalho tem levado muitos jornalistas ao esgotamento físico e emocional. A síndrome de Burnout, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é um distúrbio causado pelo estresse excessivo no ambiente de trabalho. No jornalismo, a cobrança massiva, o contato diário com notícias ruins e a necessidade de rapidez tornam os profissionais mais vulneráveis ao problema.
Dados fornecidos pelo Ministério da Previdência Social revelam os números de benefícios por incapacidade temporária concedidos segundo a CID Z73, que é o código utilizado por especialistas para classificar o esgotamento mental e físico ligado ao trabalho. Os números são gerais e incluem trabalhadores de diferentes profissões, não apenas jornalistas, mas mostram o crescimento dos casos no Brasil e no Amazonas nos últimos cinco anos. Durante uma reunião do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional (CCS), realizada em abril deste ano, o conselheiro Carlos Magno destacou a dificuldade de obter dados atualizados sobre saúde mental no setor da comunicação.
A psicóloga Rebeca Moreira explica que a rotina de um jornalista exige um estado de alerta quase constante. Prazos curtos, pressão por resultados, exposição contínua a notícias difíceis e a necessidade de “dar conta de tudo” podem levar o cérebro a operar em modo de sobrevivência por muito tempo.
Na prática, isso pode gerar exaustão emocional, ansiedade, alterações no sono, irritabilidade, dificuldade de concentração e até um distanciamento afetivo como forma de autoproteção. Na TCC, entendemos que quando uma pessoa vive sob pressão contínua, ela tende a desenvolver pensamentos automáticos rígidos, como: “eu não posso falhar”, “preciso estar disponível o tempo todo” ou “descansar é perder produtividade”. E isso alimenta um ciclo de sobrecarga silenciosa.
Muitos jornalistas que enfrentaram a síndrome relatam crises de ansiedade, exaustão e alguns não percebem os sinais, que é o caso da jornalista Ananda Chamma.
Eu não percebi mesmo meu corpo dando sinais. Quando eu passei mal no ao vivo, me levaram para o hospital. Depois de diversos exames e conversa com os médicos que fui diagnosticada. A ansiedade triplicou. Eu vivia em estado de alerta, não conseguia dormir direito pensando no trabalho, tinha taquicardia e muitas crises de enxaqueca. Depois do diagnóstico, comecei a fazer terapia e buscar mais tempo para mim, por exemplo, vou para academia, estudo, dedico para cuidar de mim. Busco resolver o que tem que resolver no horário do trabalho.
Além dos impactos emocionais, o Burnout também pode gerar afastamento do trabalho e garantir direitos trabalhistas ao profissional diagnosticado. O advogado Eduardo Cogo explica quais os direitos do profissional diante dessas situações.
As empresas têm o dever de garantir um ambiente de trabalho psicologicamente saudável, respeitando jornadas e períodos de descanso dos jornalistas. Em casos de Burnout, o empregador deve emitir a CAT, manter benefícios durante o afastamento e garantir estabilidade de 12 meses após o retorno. Caso o adoecimento seja causado pelas condições de trabalho, a empresa pode responder judicialmente por danos morais e materiais.
Acompanhemento psicológico, descanso, rotina saudável e desconexão total fora do horário de trabalho são fundamentais para evitar o esgotamento. A doutora Rebeca alerta para os sinais e quando o profissional deve buscar ajuda.
O momento certo de procurar ajuda psicológica não é apenas quando a pessoa “entra em colapso”. O ideal é buscar apoio quando começa a perceber que o sofrimento está deixando de ser pontual e passando a afetar áreas importantes da vida: sono, humor, relacionamentos, motivação, desempenho ou até a capacidade de sentir prazer nas coisas. Alguns alertas importantes que os profissionais devem observar são: cansaço constante mesmo após descanso, sensação de estar emocionalmente anestesiado, dificuldade de desconectar do trabalho, crises de ansiedade, irritabilidade frequente, lapsos de memória, sensação de incompetência, autocobrança excessiva e isolamento. Outro sinal importante é quando a pessoa começa a funcionar apenas no “automático”, sobrevivendo aos dias, mas sem realmente se sentir presente na própria vida.