Por: Bruna Pinheiro
Sair de casa cada vez mais cedo para chegar ao trabalho no horário, enfrentar longos congestionamentos, esperar ônibus em paradas sem estrutura adequada e gastar mais dinheiro com transporte são situações que fazem parte da rotina de muitos manauaras. O trânsito da capital amazonense tem se tornado um dos principais desafios enfrentados pela população, impactando diretamente a mobilidade, a produtividade e a qualidade de vida.
Nos últimos anos, o crescimento da frota de veículos tem contribuído para o aumento dos congestionamentos em diferentes regiões da cidade. De acordo com dados fornecidos pelo Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM), Manaus possuía 1.009.106 veículos registrados em maio de 2025. Um ano depois, em maio de 2026, esse número saltou para 1.066.550 veículos, um crescimento de 5,69%.
O aumento da quantidade de carros, motocicletas e caminhões circulando pelas ruas tem provocado reflexos diretos no trânsito da capital. Os congestionamentos deixaram de ser um problema restrito aos horários de pico e passaram a ocorrer durante boa parte do dia, principalmente em avenidas de grande circulação, como Djalma Batista, Constantino Nery, Torquato Tapajós, André Araújo, Rodrigo Otávio, Cosme Ferreira e Efigênio Sales.
Além das vias principais, os motoristas passaram a utilizar rotas alternativas para tentar escapar dos engarrafamentos. No entanto, o grande volume de veículos também tem provocado lentidão em ruas que antes eram consideradas opções mais rápidas para o deslocamento.
O especialista em trânsito, Rafael Cordeiro, explica o motivo pelo qual o aumento de veículos impacta no trânsito e destaca que vai muito além do volume. Para o especialista, o crescimento da frota exige investimentos contínuos em mobilidade urbana. A ampliação da infraestrutura viária, melhorias no transporte coletivo, ações de educação para o trânsito e reforço da fiscalização são algumas das medidas frequentemente defendidas para reduzir os problemas enfrentados pela população.
Para muitos trabalhadores, o trânsito significa perda de tempo e mudanças na rotina. O resultado é uma rotina cansativa, que reduz o tempo disponível para descanso, lazer e convivência com a família. A situação é ainda mais difícil para profissionais que dependem do carro para trabalhar. Quanto maior o tempo parado no trânsito, menor a produtividade e maiores os gastos com combustível e manutenção dos veículos. Para o jornalista Hariel Fontenelle, o trânsito afeta diretamente seus compromissos profissionais. Ele destaca que o horário de pico passou a ser em todos os momentos.
Enquanto os condutores enfrentam congestionamentos constantes, quem depende do transporte coletivo convive com outros desafios. A espera por ônibus, a superlotação e a falta de infraestrutura em diversos pontos da cidade fazem parte da realidade muitos passageiros. Em muitos bairros, usuários relatam que precisam sair de casa com antecedência para não perder compromissos importantes. Além do tempo gasto durante o percurso, a demora na chegada dos coletivos também influencia diretamente na rotina dos trabalhadores e estudantes.
Outro problema frequentemente apontado pela população é a situação das paradas de ônibus. Em diversos pontos da cidade, a estrutura disponível não oferece proteção adequada contra o sol e a chuva, condições comuns no clima amazônico. Em dias de forte calor, os passageiros ficam expostos às altas temperaturas. Já durante as chuvas, muitas vezes precisam se abrigar em locais improvisados, as vezes, até subir nos bancos. A falta de iluminação pública em algumas áreas também contribui para aumentar a sensação de insegurança. Trabalhadores que saem de casa ainda de madrugada ou retornam para casa durante a noite convivem diariamente com o medo de assaltos e outras situações de risco.
Para muitas pessoas, a combinação entre demora no transporte, falta de infraestrutura e insegurança transforma o deslocamento diário em uma experiência desgastante, que é o caso da jornalista Lívia Nerfetite, que relata um combo de problemas no seu dia a dia.
No meu caso, é mais questão de logística, trânsito e estrutura do busão. Em dias de chuva é horrível porque as paradas de ônibus são podres e as paradas não são estruturadas pra isso. Pra proteger da chuva. Fora os bueiros entupidos. Onde eu moro é longe e a linha do busão é pequena, diferente de outras linhas. Então tenho que acordar bem cedo pra pegar ele e não enfrentar tanto trânsito. Ônibus velho, vandalizado, mofado, vidro quebrado e etc. Fora que é imundo, é muita gente entrando e saindo e ninguém tem respeito pelo coletivo.
Diante das dificuldades enfrentadas por motoristas e usuários do transporte coletivo, uma parcela da população passou a recorrer aos aplicativos de transporte como alternativa para fugir dos congestionamentos e reduzir o tempo de deslocamento. Entretanto, essa opção também tem se tornado motivo de reclamações. Em horários de grande movimento, durante chuvas intensas ou em momentos de alta demanda, os preços das corridas costumam aumentar de forma exorbitante. Para muitos usuários, os valores cobrados em determinados períodos chegam a dobrar em comparação com horários de menor movimento.
O aumento constante dos gastos com transporte tem impactado diretamente o orçamento das famílias. Seja utilizando veículo próprio, transporte coletivo ou aplicativos, o deslocamento passou a representar uma despesa cada vez maior para os trabalhadores. Além dos prejuízos financeiros e do desgaste físico causado pelas longas horas no trânsito, existe outra preocupação que acompanha a mobilidade urbana em Manaus: a segurança viária.
Dados levantados pelo professor Mário Ricardo, representante do Observatório Nacional de Segurança Viária no Amazonas, mostram que o trânsito da capital continua registrando números preocupantes de acidentes e mortes.
Levantamento referente ao primeiro quadrimestre de 2026 aponta que Manaus registrou 89 mortes no trânsito entre janeiro e abril deste ano, contra 75 no mesmo período de 2025, representando um aumento de 19%. Os números evidenciam um cenário que continua exigindo atenção das autoridades e da população. Segundo o estudo, janeiro registrou 21 mortes, fevereiro também contabilizou 21 vítimas fatais, março apresentou o maior número do período, com 25 mortes, e abril fechou com 22 registros.
Os dados revelam que, além dos congestionamentos, o trânsito da capital enfrenta problemas relacionados à imprudência e ao comportamento de parte dos condutores. OS fatores como excesso de velocidade, falta de atenção ao volante e consumo de álcool continuam entre as principais causas dos acidentes mais graves registrados na cidade.
O número de pessoas feridas também chama atenção. O estudo aponta que mais de 10 mil atendimentos a vítimas lesionadas em acidentes de trânsito foram realizados pelo sistema público de saúde até o mês de abril deste ano. Somente em abril, foram contabilizados 2.421 atendimentos.
A maior parte das ocorrências envolveu motocicletas. O levantamento registrou 1.551 atendimentos relacionados a acidentes com motos, além de casos envolvendo carros, atropelamentos e outros tipos de sinistros.
Embora o crescimento da cidade e da frota de veículos represente um desafio para o poder público, a mobilidade urbana continua sendo uma questão que afeta diretamente a vida dos moradores. O tempo perdido em congestionamentos, a espera pelo transporte coletivo, os custos elevados com deslocamentos e os riscos presentes no trânsito fazem parte da rotina de milhares de pessoas.
Enquanto soluções estruturais são discutidas e implementadas, os manauaras seguem enfrentando diariamente os obstáculos de uma cidade que cresce rapidamente e precisa acompanhar essa expansão com investimentos em mobilidade, segurança e qualidade dos serviços oferecidos à população.
Mais do que um problema de circulação, o trânsito de Manaus tornou-se uma questão que influencia o trabalho, os estudos, a saúde e a qualidade de vida dos moradores. A busca por alternativas que garantam deslocamentos mais rápidos, seguros e eficientes permanece entre os principais desafios da capital amazonense.